Saiu sem saber direito o quê ou quem ia encontrar. De diferente, um frio revolvendo a boca do estômago, as mãos geladas, uns tremores sacudindo o corpo, ansiedade sem motivo aparente. A cabeça começava a doer prenunciando mais um inferno, a têmpora direita não parava quieta: a cada palpitação, uma agulhada nos miolos. Maldisse a cerveja do dia anterior, tomou analgésico, seguiu. Chegou no bar, pediu coca-cola, tentou adivinhar o que viria a seguir. Conseguiu, mas não acreditou muito até vê-lo, riso largo, barba por fazer, bonito - tão bonito! Levantou-se da cadeira, um abraço cordial, beijo rápido no rosto, a quase euforia contida. O corpo tremia tanto que teve medo de se denunciar. Correu até o banheiro, sem vontade de nada, lavou as mãos, repetiu mil vezes: calma! Voltou à mesa com a têmpora explodindo, decidiu beber. Foi pior. O anúncio na placa luminosa à frente deu o golpe de misericórdia, a dor crescendo. Acabou que veio a calhar, a placa, pois de onde estava não podia vê-lo bem sem ser percebida, decorar seu rosto, decifrar seus movimentos. A pretexto dela, pôde então sentar-se do outro lado da mesa, olhá-lo de frente, aproveitar os intervalos das agulhadas para imaginar, quase sentir, o roçar daquela barba na nuca. Pensou: é hoje ou nunca. O inesperado tem dessas coisas. Tudo acenava que estava mais pra ser nunca. Conversas e silêncios, por que é que essa dor não passa, por que é que esse povo não vai embora, por que não adivinhei antes, por que não paro de tremer, por que não saímos daqui correndo, por que não desligo o telefone? Tocou. Não era mesmo pra acontecer. Bom demais pra ser verdade. Tenho que ir. Desculpas etc. Saiu murcha, morrendo de dor e frustração, maldizendo o telefone, a ineficácia do remédio, a brevidade do encontro, a impossibilidade, o inesperado. Talvez nunca mais. Talvez algum dia. Talvez. Levou pra casa, colados na lembrança, todos os fragmentos dele que conseguiu reter: rosto, boca, riso, pernas. Dormiu com eles, dormiu com ele. Não sonhou. O despertar sem dor e o sol nascente abriram outro dia. Outra possibilidade.
sexta-feira, 27 de junho de 2008
Outra possibilidade
quinta-feira, 26 de junho de 2008
Soy libre?
Cada um escolhe suas amarras. Livre até certo ponto. Liberdade de ficar ou partir, de querer ou desquerer, liberdade relativa. O amor liberta, a gente é que faz dele mau uso, deixando-o com cara de cárcere. Artur da Távola, em seu belíssimo ensaio Do amor: ensaio de enigma, alerta para essa distorção. Escreveu que muitas, muitas pessoas mesmo, se unem por motivos como a solidão, o interesse, a carência, as afinidades, o desafio da conquista e até por amor. Poucas o fazem pela felicidade. E assim se deixam ficar até chegar o cansaço ou morrerem infelizes para sempre. É que- disse ele - o amor é leve e perfeito. Nós, imperfeitos, o sobrecarregamos com expectativas, podas, intolerância, cobranças, até que ele vire fardo, se esgote, se vá de vez deixando oco ou ranço. Uns poucos sábios saem antes, quando ele ainda pulsa mas já não encontra espaço, fazendo-o assim virar poema, lembrança, canção.
Em meio a histórias esgotadas, relações que morreram em presença, fica difícil vislumbrar saídas, fica difícil ver à frente um caminho aberto, cheio de luz. E nos deixamos ficar, tristes, acabrunhados, mal humorados, cheios de questões vazias - haverá um novo amor? encontrarei alguém? serei feliz? - cuja resposta está nelas mesmas. Questões que podem ser respondidas com outras questões pertinentes: há um amor agora? o que estou vivendo é um encontro? estou feliz?
Diante da negativa, não há porque choro nem vela. O recomendado, segundo Vinícius de Morais, é sair sem alarde, mansamente, levando uma muda de roupa e a escova de dentes. Porque virá sim, o luto. Mas dura, no máximo, acredito, uns três meses. Dói pra danado, intensamente, mas passa. Depois mostra o brilho da estrada nova. E o quanto não já doeu mornamente no durante?
É preciso coragem, é preciso destemor, é preciso força, mas vale a pena. Partir é também libertar-se. Ao deixar algo para trás, que nos fazia ficar atrás também, nos abrimos para o que pode vir. E o que virá pode não ser necessariamente alguém, mas há de ser amor. O reencontro amoroso consigo mesmo, com o seu eu mais profundo, submerso até então, que encerra porém, tesouros a descobrir.
O amor liberta. E há que se libertar o amor. Talvez seja hora, como no mito de Prometeu, de subir até o rochedo e cortar-lhe as amarras, dar fim ao seu suplício, ao invés de a cada dia bicarmos como abutres seu fígado. E como tudo vira canção, cantar também: "soy libre, soy bueno y puedo querer".
terça-feira, 24 de junho de 2008
Desconstrução
procure as pistas, leia nos caminhos
ache as pegadas na estrada de terra
na encruzilhada, pergunte à cigana
veja nos astros os segredos dela
decida logo, pode chegar tarde
saiu, sumiu, nem deixou endereço
acordou cedo, nada mais queria
nem café morno nem a vida igual
andar ligeiro, nem olhar pra trás,
pra não tornar-se estátua de sal
cansou de tudo, o desamor, o espinho
cansou de cedo conhecer a dor
cansou do medo, do seu descaminho
do ser sozinho, do pranto cansou,
como cansou do riso e da canção
da longa espera, o nada anunciado
o possível, o impossível, o namorado
o noivo, o amor, o amante e a mentira
cansou, se foi, saiu cedo com o dia
não volta mais porque se foi de vez
em seu lugar, a si mesma deixou
que era, porém, outra, por sua vez.
domingo, 22 de junho de 2008
Mercedes
Eu tinha dez anos quando A Arte de Mercedes Sosa entrou lá
Não conseguia não me comover até as lágrimas ouvindo o violino de violin de Becho, pensando nas crianças de Niño en la calle, ou não me indignar junto com o texto de Plegaria a un labrador. Alguns anos mais tarde, aprendi toscamente a tocar Volver a los 17 no violão.
Mercedes é intrigante. Quem conheço que não gosta, dificilmente vai vir a gostar. E para todos os que conheço que gostam, virou vício desde a iniciação. Assim foi lá em casa até o fim do vinil. Entravam com ar de grande novidade, com a ansiedade que antecede a revelação, os discos que se sucederam à Arte. Virou paixão. E perdura.
O tempo passou, trinta anos se foram. Irmão não tem mais tempo. Irmã se foi e não volta mais. Só se houver outra vida. Mercedes canta aqui em casa, sem o encanto dos vinis e a festa dos irmãos, sem o violão e o canto dos ouvintes acompanhando. Canta nos raros dias de chuva, histórias de luta e de amor. Amor por um povo ou por um homem, uma mulher. Canta forte, batendo o seu tambor, enchendo o ar com sua voz tucumana. Os vizinhos não a conhecem, parecem torcer o nariz para o som, mesmo baixinho, audível só da soleira da porta. Eu a vejo cá e lá, em programas de tv, imagens de arquivo, ou em vídeos na internet, já maltratada pelo tempo. Sua voz ainda forte, no entanto, não deixa dúvida do quão importante foi crescer junto ao seu canto.
sábado, 21 de junho de 2008
O abismo
Nunca conhecera alguém assim. Insondável. Obscuro.
Abismo de mistérios: lança-te e continuarás sem descobrir o que ele oculta. Talvez até quebres o pescoço, na melhor das hipóteses.
Nada explícito, nada dito, e se insinuado, sutil por demais para ser percebido por quem diz demais, por quem vive nu, por quem rasga o peito e estampa nos out-doors da cidade o coração.
"Nunca" se tornara uma constante. Nunca antes tão contraditório sentir assim. Intenso, arrebatador e - como? - conformado, inteiramente à mêrce do acaso. Intenções moduladas, nada será, nada é, nada foi além de encontro. O vaso é pequeno para comportar a raiz. A planta não tem pra onde crescer. E falta a rega. E sobra a poda, auto-infligida.
As canções ecoam na lembrança, uma
Perigoso mesmo é não viver. Não se lançar. Passar ao largo do abismo.
Lançou-se. Não chegou ao fim. Esbarrou em algo, aportou
Estranhíssimo. Alegria e tristeza, encontro e despedida, tudo junto, misturado. Nem quebrou o pescoço. Também não conheceu o abismo, que continua lá, na outra esquina da outra estrada, ainda insondável, ainda tentador. Depois do primeiro mergulho, ainda mais que antes.
A próxima página do livro poderia revelá-lo, mas não há nada nela para ler: não chegou a ser escrita.
(dedicado aos escorpiões)
segunda-feira, 16 de junho de 2008
Junho
Vazio de palavras e sons. Um oco sem eco. Por fora. Dentro tudo pulsa, grita, reverbera. Turbilhão. Tempestade. Quisera dizer-lhe todos os desaforos calados. Romper o silêncio. Abolir o não dito.
Entardece e tudo é torpor. Nuvens, tédio, imprecisão. Nada desperta, nada é viço, nada... Nada houve, quase nada. Quase um desenho. Nem chegou a ser. Esboço, rascunho, garatujas no papel que se dissolve hoje em algum lixão da cidade cinzenta de breve inverno. Inverno confuso, estação de mentira, como as outras nela. Nunca verão, nunca completo. Estio e chuvas, calor e menos calor. Sempre assim.
Quisera gritar-lhe toda a sorte de impropérios. Os mais baixos, todos os do repertório elaborado na escola pública, na rua, em casa, todos os que anos de literatura clássica não chegaram a suprimir. E o faria sem rubor. Mas não consegue dizer nada além de perdão, por favor, obrigado, com licença. Bom, muito bom. Adestramento feliz, lapidação quase perfeita. Não fosse pelas marcas do tempo.
Vazio. Surdo. Mudo. Cego. Oprimindo o que quis florescer. Esmagando a promessa de sol. Fugindo da dor. Feliz, feliz. Falsamente feliz. Riso, canto, álcool, planos, livros, projetos...
Entardece na cidade cinza. O amor não vingou. Não vingará. Não existiu sequer para se trasnformar. Nem em raiva, nem em pranto, nem em saudade, nem em lembrança, nem
domingo, 16 de março de 2008
O que meu corpo abriga
"Eu não sei o que meu corpo abriga nessas noites quentes de verão..." É down em mim, a música. Cazuza cantava. Penso nela hoje porque algo em mim dói mais que ontem. Pensei em ir até a farmácia, mas lá só vende artificial, a alegria, e eu queria genuína. Luís Gonzaga Júnior, Gonzaguinha, em uma de suas composições, nos dizia de uma peregrinação pela cidade atrás dela, "que vendem barato em qualquer quitanda". Mas estava tudo fechado. Nada de alegria, felicidade, ânimo, cura, paz, a ausência desse não sei quê que faz doer agudo ou que nome quer que tenha isso que hoje aperta a alma mais que normalmente.
Alguém me enviou um poema certa vez. Anônimo. Falava na "ausência do que não tive". Não é incomum se sentir ausência do que não se tem ou não se teve. De amor? De sentido? Talvez essas sensações sejam apenas doença de verão. Ou podem ser doença de impossibilidades.
Acontece assim com os amores não vividos. Há até quem adoeça por eles. Muita gente nunca os teve, mas quem teve ou tem sabe que doem. Quem dentre estes não se perguntou como teriam sido, se possíveis? Quem não imaginou como seria compartilhar o sonho e a cama, os sussurros e segredos com o seu amor, desvendar-se, revelá-lo? Na sua fantasia, perfeita, ele lhe olharia com olhos cheios de amor também. Suas mãos seriam leves; seu corpo, quente; o encontro, pleno, verdadeiro, intenso. Seria fascinante, você imagina, ter podido sentir o toque e o calor da sua pele, suas mãos deslizantes pelas costas, o tracejar dos dedos redesenhando o contorno da boca, a cumplicidade nas bobagens ditas, no olhar pro teto, no beijo. O beijo. Pode acontecer de você nunca ter antes pensado no beijo até que uma noite ele lhe assalta em sonho, o beijo que você não provou, e lhe faz acordar assim, com saudade do que não viveu. Nostálgico. Às vezes patético. Você imagina muitas estradas, caminhos, histórias, e mais, muito mais, sem saber (nem saberá) se teria sido assim. Nunca é. Durante os momentos em que ele lhe revestiu de sentido a vida, você achou que podia ser amor e que valia a pena sentir, até de longe, até na ausência, até impossível. Ironia é que pelos descaminhos dessa mesma vida, ele não pôde florescer.
E quando o seu desejo, ciente das impossibilidades, resolveu insistir e permanecer, adormecido, sublimado ou latente, foi então que virou amor, atingindo a condição de amor impossível. Impossível consumar, possível sentir; às vezes em paz, em outras, com dor, sem direito a retribuição nem expectativas. Por isso talvez tantos deles morram. Não conseguem sobreviver por muito tempo, a não ser que se os entorpeça a contento. Talvez os entorpecidos ainda resistam porque muitas vezes são bem maiores que o grande nada de antes. Vêm então para preencher as lacunas de si que atormentam cada um.
E sem saber ao certo se são eles que lhe incomodam nesse fevereiro em meio à floração dos cajus, você se pergunta, como eu, o que seu corpo abriga nessas noites quentes de verão...
quinta-feira, 4 de outubro de 2007
Primavera em Natal
Calçada em tapete rosa
flor de jambo é todo o chão,
tem mangueiral, cajueiro,
ipê roxo em floração,
a tarde amarelecendo
no espelho da grande duna,
um coração que se quebra,
se remenda, e novo em folha,
é de novo fruto, é flor,
é verso, é o que mais for
o vento revolve em volta
o que de antigo não morre
o que em novo não perece
primavera o ano inteiro,
dentro e fora, tarde e cedo.
eu canto, e você nem vê
ou, talvez, não quer saber
a vida inteira se move
na roda do universo
um menino esfomeado
bate à porta em minha casa
um poema esfaqueado
exangue, morre no asfalto
quem se importa? que se dane!
tem-se mais o que fazer
é primavera em Natal
mas ninguém mais quer saber
quarta-feira, 29 de agosto de 2007
Soneto
Anoiteceu, o sopro na janela,
o vento, implacável ao meu redor,
desperta o canto que se quer maior
com outras tintas colorindo a tela
Acordes repovoam o esquecimento
canções esparramadas noite afora
esperam a madrugada, sem demora,
para invadir teu quarto e pensamento
Quantas cores invento a cada dia
para pintar de sonho um novo som
como se a poesia ainda vivesse?
E quantas luas eu não esperaria
pra te dizer quanto seria bom
estar contigo? Isso, se eu pudesse.
quarta-feira, 22 de agosto de 2007
Às filhas bastardas da ditadura (em 19/04/2003)
"E é como se eu descobrisse que a força esteve o tempo todo
Estive pensando no que deu pra nós no tarot.
A carta, não me lembro qual, dizia que era tempo de romper com as maldições.
De passar por cima de todos os nãos acumulados por tantos anos e que nos impediam e impedem de avançar: os "não pode", "não consegue", "não é capaz", "não sabe", "não precisa fazer isso", "não é possível", "não vale a pena".
Não sei quem veio antes: se a história da Bela Adormecida foi o molde utilizado para nos enquadrar ou se foi uma leitura simbólica do que já eram algumas mulheres.
Lembro da nossa adolescência.
Como na história da Bela, a maldição tomou forma na adolescência.
Nasceu e uma mulher, infeliz com sua vinda ao mundo, rejeitada por ter sido esquecida para a festa de batizado, lançou-lhe uma maldição, segundo a qual, mal entrada na adolescência, ela adormeceria eternamente por obra de um tear mágico.
Era curiosa, aos 15 anos desobedeceu as ordens de ficar longe dos teares, queria vê-los, furou o dedo em um, enfeitiçado, e adormeceu. Até que um principe de um reino perdido viesse libertá-la do sono com um beijo. Era limitado o poder da bruxa, afinal.
Éramos livres, ou nos sentíamos livres e parecíamos saber o que queríamos.
Isso na infância.
Na adolescência, as maldições foram muitas. Não nos enquadrávamos, não tínhamos "vaidades", como convinha às mocinhas da nossa idade. Escondíamos nossa falta de roupas modernas e sorte com os rapazes, pela timidez e inadequação da adolescência, atrás do discurso engajado de meninas inteligentes e à "gauche". Construíamos nosso grupo, lugar de exercício – e construção – da nossa identidade : o grupo das "alternativas". Alternativas por convicção ou por falta de alternativa, por inadequação?
As meninas direitas bebiam guaraná. Tomávamos cachaça.
As meninas direitas eram do grupo de jovens, iam à missa, ficavam noivas.
Éramos da União da Juventude Socialista, iamos às reuniões do Partido, ficávamos tristes.
As meninas direitas debutavam, se confessavam, queriam casar e ter filhos.
Comemorávamos na praia nossos aniversários, éramos agnósticas, queríamos fazer a revolução.
As meninas direitas transavam nos carros dos namorados, se diziam virgens, não se tocavam, não falavam nome feio.
Éramos virgens por não saber como deixar de sê-lo, falávamos de sexo com nossos amigos, buscávamos respostas sozinhas no escuro do quarto, exercitávamos nosso léxico de palavrões cabeludos.
As meninas direitas dançavam música lenta. Não sabíamos dançar.
Cantávamos alto na rua. Elas, de walk-man.
Elas, Raimundo Sodré. Nós, Geraldo Vandré.
Nossos amigos, os "diferentes": homossexuais, enrustidos ou não, futuros suicidas, "bichos-grilo", rebeldes, engajados ou inadequados como nós.
A "turma" delas, os meninos ricos: os bonitos, dourados, surfistas e motorizados, fisiculturistas, esportistas, esportivos, alienados, modelos, cobiçados, protótipos dos futuros bem-sucedidos, enfim.
Negávamo-nos nossa feminilidade e alguma beleza. Éramos endurecidas, pisávamos firme, tínhamos gestos largos, mãos demais para saber o que fazer delas. E a força da palavra. Falávamos para auditórios, em reuniões, em palanques.
Com o garoto desejado, emudecíamos. Eramos vistas, respeitadas, apontadas, admiradas, rejeitadas, nas mesmas proporções. À distancia, como cabe aos "diferentes". E queríamos abraço, mesmo assim.
Elas não precisavam estar no centro. Eram meninas-mulheres. Tinham o encanto da sensualidade que se revelava. Não precisavam da força verbal e gestual. Podiam ser frágeis, era o seu charme.
Nós, não. Para a patrulha ideológia seria imperdoável: "desvio pequeno-burguês".
Ainda assim, do alto do morro, à força de largos goles de vinho barato, chorávamos ao pôr-do-sol ou nas festas da lua; de frente à fogueira ou cantando canções. A dimensão do poético era permitida, pois que a angústia de viver e crescer era contestatória afinal.
Assim vagamos, nunca totalmente entre os adultos, que nos faziam concessões, dado sermos exceções; nunca totalmente entre os "outros" adolescentes, pra quem tanto éramos divinos, por ousar, quanto malditos, pela exclusão que nos impunha a ousadia de sermos diferentes. Diferença que era escolha, negação ou condição?
Assim chegamos aos nossos teares. Furamos os dedos, adormecemos. Estava instaurada a nossa maldição. O fuso do tear nos penetra até a alma. Enfim, seremos "normais". No tear, a descoberta do masculino no outro, do encontro da carne, o desabrochar do prazer-dor, do amor que redime e concede o auto-perdão. Com ele, o direito a ocupar espaços antes proibidos, por outros, por nós.
Vêm os filhos, a casa, o trabalho, parece que enfim, estamos, chegamos, podemos.
Mas é condição intermitente. E se vai. O príncipe vira sapo, o mundo pesa. O seu beijo não nos desperta. A maldição não é quebrada. E fica o gosto de sangue e de sono, do perdido, do não alcançado.
A carta do tarot, simbólica como a história da Bela, o que dizia, afinal?
Talvez que crescemos e que não tem mais bruxa, nem fada.
Aprendemos o batom e o perfume, o vestido e a cor. Permitimos o riso e assumimos os riscos. Somos. Podemos seguir. Mudamos de gestos e o tom do discurso, não de lado. Acreditamos e queremos romper com a maldição. Sabemos que despertar do longo sono vai doer e que o beijo do príncipe virá nos libertar. E ele não vem de longe, em um cavalo branco. Vem de dentro, da nossa dimensão masculina, aceita, suavizada. Revela-se no casamento entre a força e a doçura dentro de nós. Força enquanto atitude, para desafiar e vencer as maldições. Doçura enquanto expressão: o beijo como arma. Ele, o príncipe que há em nós, nos revela inteiras e libertas. Nao há príncipes externos a esperar. A força está lá dentro, sempre esteve: quando a buscávamos, querendo ser/sendo menino-guerreiro; quando a negávamos, pensando ser/sendo, esposa-mãe e trabalhadora exemplar. Escapamos cansadas.
A força não é mais oposição. É a aceitação do todo em nós: o feminino/masculino, homem/mulher. Completos, presentes, fundidos, misturados, complementares, contraditórios. Partes e todo em nós, suave beijo contra a maldição da história. Maldição, que assim como a força, nunca existiu, senão dentro de nós, de cada um, e nas histórias que ouvimos, criamos, construimos, contamos.
E nas cartas do tarot.
(escrito para Niza, Heronilza Ferreira do Nascimento, em Paris, quando o seu sorriso solar ainda iluminava esse mundo)
segunda-feira, 20 de agosto de 2007
A casa da viúva (em 17/02/2002)
Rua Presidente Bandeira. À época, avenida Dois. Ainda tinha a linha Vila São José pela rua Jaguarari e uma espera tão grande pelo ônibus, que do Barro Vermelho ao Alecrim era melhor ir a pé. Ainda ruas de areia, e de paralelepípedos, muitas. Ainda lentidão no despertar, no caminhar e no viver. Tudo amanhecia meio preguiçoso nos muitos dias de sol de Natal.
A casa funerária era a maior da cidade. Metiam medo todos aqueles caixões roxos e grinaldas artificiais, coisa de assombração, não da morte, que quase sempre parece distante na infância.
Não tinha como desviar, era o roteiro obrigatório até o endereço encantado. Sábado, movimento, feira, comércio, passada a porta do medo, logo ali, vizinho, o endereço.
A Casa ficava abaixo do nível da calçada. Bastava descer uns degraus e se via o balcão. O rosto por detrás me foge, sei que era viúva e sempre vestia preto, com um lenço no cabelo. Sobre o balcão, calendários de santos, do Sagrado Coração, de gatos, de crianças rosadas de olhos azuis. O tesouro, os pequenos livros com capas ilustradas, miolo em papel jornal, modestos, empoeirados, amarelecidos pelo tempo. Custavam o troco da feira. Quando havia troco - quase nunca - minha mãe comprava o que podia. Às vezes um, às vezes mais.
Contavam historias de reinos distantes, dragões e princesas encantadas, combates heróicos e viagens sem fim. Minha imaginação se enchia de pavões voadores, meio bicho, meio nave, cachorros que venciam dragões, reinados subterrâneos que desapareciam miraculosamente à luz do dia.
À noite, meu pai contava e cantava de cor essas historias, todas rimadas e ritmadas, e findava por adormecer. Ele. Eu continuava a viagem até a caverna do dragão, esquecendo o medo das flores de plástico, o calor e os mosquitos, até os olhos pesarem mais que a fantasia.
A funerária cresceu, a calçada subiu. A casa foi engolida pelo asfalto. A viúva desapareceu.
Faz tanto tempo!
Às vezes eles ainda voltam, à noite: o pavão misterioso, Juvenal e os seus cachorros mágicos, Rompe-ferro, Ferrabrás. Às vezes ainda chego até a entrada da caverna e vejo que o dragão continua dormindo seu sono eterno de lenda. É então que durmo também. E sonho, um sonho leve, de sono sem medo.