quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Redirecionando

Como me perguntaram, e para quem não viu o aviso no meu perfil aí embaixo, lado direito da tela e desta página, esclareço que ando escrevendo, desde que me aposentei daqui, neste novo endereço aqui.

abraços e beijos e até,

Márcia

terça-feira, 21 de outubro de 2008

No mais...

estou indo embora.

Sem bloguicídio, sem exclusão.

Se me perguntarem, respondo. Por e-mail: mgp1967@gmail.com

‘Semeperguntarem’ cumpriu sua função terapêutica. Hoje me deu alta. Parto pro hospício real, a vida deládefora. Escrevendo outras coisas. N'outros cantos. “Outras palavras – nada dessa cica de palavra triste" etc, já dizia Caetano.

Agradeço as visitas dos meus irmãos de sangue: Márcio, Marcos. Amo vocês, sempre.

Às minhas amigas e amigos - irmãs e irmãos de alma: Alci, Aninha, Aninhaflávia, Evinho, Christian, Sandro, Renato, Hilminha.

Aos demais visitantes, não menos queridos. Poucos e bons que doaram um naco do seu tempo a essas leituras tão vãs e a essa partilha tão importante pra mim: Julinho, Oswaldo, Júnior, Roberto, José Correia.

Ao décimo-sexto leitor, artesão da palavra/poeta/escritor, texto primoroso, midc, que atendendo um meu pedido, deitou generosamente seus olhos por cá.

Um pedido de perdão pelo sumiço dos comentários, sacrificados, não por querer, no derradeiro bloguicídio.

Saúde!

Santé!

“Eu bato o portão sem fazer alarde, eu levo a carteira de identidade, uma saideira, muita saudade e a leve impressão de que já vou tarde...” (Chico/Francis)

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Amor, então


Amor, então,
também acaba?
Não que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.

(Paulo Leminski)

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

E então, que quereis?...

Fiz ranger as folhas de jornal

abrindo-lhes as pálpebras piscantes.

E logo

de cada fronteira distante

subiu um cheiro de pólvora

perseguindo-me até em casa.

Nestes últimos vinte anos

nada de novo há

no rugir das tempestades.


Não estamos alegres,

é certo,

mas também por que razão

haveríamos de ficar tristes?

O mar da história é agitado.


As ameaças e as guerras

havemos de atravessá-las,

rompê-las ao meio,

cortando-as

como uma quilha corta as ondas.


(1927)


Vladímir Maiakóvski

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

de cajus e recidivas

Outubro, outono no outro hemisfério, e aqui, dizem, primavera. Só pra repetir o tema.

Chuva dos cajus lavando ligeirinho umas manhãs nostálgicas que vêm montadas na velha canção de Roberto: “mas o meu silêncio foi maior e na distância morro todo dia sem você saber”.

A distância.

O silêncio.
Há quem não saiba conviver com ele, me disseram. Há quem necessite dele.

Cá do meu lado, fico no meio-termo, este sim, pra mim, de difícil convívio. O caminho do meio, o equilíbrio, a escolha do sábio. Nem fiz retiro budista, nem faço meditação, nem domo os meus bichos. Nem pretendo. Nem tão cedo, pelo menos.
Aí soa estranho. Vazio. Nada mais que palavras.

Paroles, paroles, paroles.

Ainda me doem umas dores. Velhas, embora recentes. Chegam mais espaçadamente. Demoram menos tempo. Recolhem-se sem muito alarde.

Veloz na vida, lenta no sentir, no passar, no esquecer. Há quem seja o contrário.
Ligeiramente en retard, penso em tentar “a cura pelo fogo. Chamas em lugar de lágrimas”. A receita até que seria uma, mas lágrimas não há, José. E agora?

A mim, ruim de pose, resta tentar a pose dos resolvidos, maduros, racionais, objetivos, alegres e satisfeitos. E já me perdoando, por ser ela, em parte, verdade.

Será de todo, posso apostar, quando chegar o silêncio bom. Espero, ainda antes do fim da safra e das chuvas dos cajus.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

do que se foi

E eis que o tempo nos engole e não nos sabemos mais. Perdemos horas, dias, trens, passagens, direções. Perdemo-nos do que somos, do que fomos, do que seríamos. Deixamo-nos para trás em alguma rodoviária, velha angústia, dúvida, descrença, algum desconcerto, ranço, travo, amargor, aeroporto.
E eis que passamos e já não somos. Buscamos, por vezes, o que porventura ainda esteja, resista, persista, permaneça. O que possa trazer de volta um sonho antigo, uma esperança: o veleiro não construído na mocidade, os portos aonde nos levaria, as viagens sem fim, o mergulho sem volta dentro de nós, a profusão dos abraços que aqueciam os dias e as almas em tempo ruim.
E eis que temos ainda sonhos, mas do que tínhamos, o que ficou? Onde aquele brilho e doçura, aquela força, a fé inquebrantável no futuro, aquela vontade de ir além, e muito, e sempre mais? Onde aquela alegria genuína, não parva, brotada do saber do leque infindo de possibilidades mesmo diante das noites mais escuras? Onde o sorriso largo, o perdão?
Sem saudosismo, por vontade de resgate, cabe perguntar.
Talvez guardados no baú do quarto, hoje aberto apenas para a retirada das farpas de que lançamos mão para nossa “proteção” quando a guerra é declarada - o que se dá, quase sempre, de dentro pra fora.
Poderíamos ter sido muito, muitos, tanto, tantos mais. Podemos ainda querer, seguir, tecer uma manhã luminosa, um doce, um sal, um amor, uma certeza, uma lágrima alegre, uma boa busca, um cruzeiro, uma revolução, uma utopia, uma fraternidade. Como pudemos outrora.

Mas nos dispersamos.

“Nesses tempos de barbárie, qualquer canção de amor torna-se uma canção engajada” (Renaud)

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

sábado, 11 de outubro de 2008

bons conselhos

Se eu fosse nascer de novo e pudesse escolher como seria, ia querer ser uma mulher burra. Razoavelmente burra. E bela. Suficientemente bela. Não que essa questão tenha lá alguma importância. Mas o médio nos dois quesitos, beleza e inteligência, ao fim e ao cabo, atrapalhou-me um pouco a vida amorosa.

Fiz um balanço dela porque passei dos 40, fui avó recentemente, e isso me meteu na cabeça caraminholas, por uns motivos, dentre os quais:

- a alegria dessa novidade tardou bem uma semana;

- a ficha do tempo passando caiu de vez.

Talvez o segundo motivo tenha causado o primeiro. Talvez seja uma grande bobagem, já que é pra saber que a gente passa mesmo. Mas não se acredita muito até dar-se conta de, o que nem sempre é tranqüilo, que o digam todos os relatos sobre a tal crise da meia-idade.

Pois bem. O balanço me fez pensar que em sendo bela, poderia adotar o comportamento que antigamente-diadesses neste município era considerado tipicamente masculino, na prática, mesmo por quem mascarava os julgamentos&falatórios com o discurso beauvoiriano.

Em sendo burra, não assustaria nenhum eleito, que entraria na mesma proposta, sem grandes, médios, nem menores dramas.

Como tal não se deu e outra vida não há, segui pensando, matutando e insistindo teimosamente em acreditar no tal do amor. Vezemquando desacreditando.

Meio ao balanço e a um papo sobre o desacreditar, um amigo me aconselhou a ser mais burrinha, sob pena de em não sendo, padecer sempre no tema. E disse mais: nunca vá com muita sede a nenhum pote.

Como não me deu as fórmulas nem lhas pedi, continuei sem saber como fazer pra adotar os conselhos recebidos.
Daí que nas raríssimas vezes em que encontro um bom pote, além de ir a ele com muitíssima sede, geralmente tropeço, feito a moça do leite, que de tanto sonhar no meio do caminho com o que faria com o dinheiro quando o vendesse, acaba deixando o bicho cair e pondo tudo a perder. E lá foi o leite escorrendo pelo chão, o pote quebrado de vez, que em ser de barro, cola nenhuma remenda mais.

Então decidi, a bem da felicidade e segundo uns indianos, montar no rato – o desejo – para que não me domine, mas seja dominado. E viver, apenas. Disse isso a esse amigo, não sem tirar o velho e bom Chico do bisaco pra complementar: "hoje tenho apenas uma pedra no meu peito e exijo respeito, não sou mais um sonhador/Chego a mudar de calçada quando aparece uma flor e dou risada do grande amor". Mentira!

de pontuação, por Xico Sá

Exercícios de pontuação amorosa.

Xico Sá

"Sim, homem é frouxo, só usa vírgula, no máximo um ponto e virgula; jamais um ponto final.

Sim, o amor acaba, como sentenciou a mais bela das crônicas de Paulo Mendes Campos: “Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar...”

Acaba, mas só as mulheres têm a coragem de pingar o ponto da caneta-tinteiro do amor. E pronto. Às vezes com três exclamações, como nas manchetes sangrentas de antigamente.

Sem reticências...

Mesmo, em algumas ocasiões, contra a vontade. Sábias, sabem que não faz sentido prorrogação, os pênaltis, deixar o destino decidir na morte súbita.

O homem até cria motivos a mais para que a mulher diga basta, chega, é o fim!!!

O macho pode até sair para comprar cigarro na esquina e nunca mais voltar. E sair por ai dando baforadas aflitas no king-size do abandono, no Continental sem filtro da covardia e do desamor.

Mulher se acaba, mas diz na lata, sem mané-metáforas.

Melhor mesmo para os dois lados, é que haja o maior barraco. Um quebra-quebra miserável, celular contra a parede, controle remoto no teto, óculos na maré, acusações mútuas, o diabo-a-quatro, barraqueiros corazones.

O amor, se é amor, não se acaba de forma civilizada.

Nem no Crato... nem na Suécia.

Se ama de verdade, nem o mais frio dos esquimós consegue escrever o “the end” sem uma quebradeira monstruosa.

Fim de amor sem baixarias é o atestado, com reconhecimento de firma e carimbo do cartório, de que o amor ali não mais estava.

O mais frio, o mais “cool” dos ingleses estrebucha e fura o disco dos Smiths, I Am Human, sim, demasiadamente humano esse barraco sem fim.

O que não pode é sair por ai assobiando, camisa aberta, relax, chutando as tampinhas da indiferença para dentro dos bueiros das calçadas e do tempo.

O fim do amor exige uma viuvez, um luto, não pode simplesmente pular o muro do reino da Carençolândia para exilar-se, com mala e cuia, com a primeira criatura ou com o primeiro traste que aparece pela frente.

E vamos ficando por aqui, pois já derrapei na curva da auto-ajuda como uma Kombi velha na Serra do Mar... e já já descambarei, eu me conheço, para o mundo picareta de Paulo Coelho. Vade retro."

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

desta noite

Eu queria te contar desta noite. A noite em que eu quis te matar em mim. A noite em que eu quis não te ver a cada momento em que deitava os olhos no céu. Em que quis que tua lembrança fosse não mais que ausência, tempo distante, brevidade. Da noite em que saí de casa e quando voltei não vi mais tua sombra no sofá vermelho, na cama, na cadeira escura, na memória.

Eu queria te contar uma história que não houve. De um tempo feliz em que nos encontramos, em que fomos sós e inteiros, em que nos perdemos sem medo, em que nos reconhecemos e nos demos as mãos.

Eu queria te contar de tudo o que ficou. Do verso derramado manchando a parede branca, da velha canção pairando sobre a casa, da calma amanhecida, do sono compartilhado. Do riso esparso perdido ecoando, iluminando o quarto escuro.

Mas já inventei de ti em mim uma presença tão funda, que mais não posso inventar.

Só te posso dizer da noite em que sobreviveste. Em que deixaste tua sombra à minha espera na mesma sala vazia, na mesma cama, no mesmo sofá vermelho.

E de uma saudade muda do que não fomos.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Des-semelhantes


Ele, noturno. Eu, matinal.

Ele, silêncio, eu, palavrão.

Ele razão, eu, passional

Eu, todo mundo. Ele, solidão.

Eu, mpb, ele, roquenrou.

Eu, botequim, ele bistrô.

Ele, erudito, eu, popular.

Signo de terra. Signo de ar.

Quase tudo

Quase nada

Ele, cinema.

Eu, madrugada.

ele analisa, eu sintetizo

ele se ausenta, eu me imobilizo

se impacienta, eu me desespero

ele indiferente, eu pondero

ele, em profusão

eu, sem ninguém

eu o desejo

ele me quer bem

ele, palavras,

eu, toda ouvidos

diferentes.

parecidos.

domingo, 5 de outubro de 2008

et pourtant. et encore.

Et pourtant je t’aimerais encore une fois, malgré ton départ sans adieu. Malgré les absences, la solitude, les larmes, la perte des rires et des mots, la peur. Pour toi je referais les mêmes fautes d’orthographe, de pensées, de sentiments.
Pour toi je me tromperais encore, et encore j’aimerais croire à la lumière du jour qui ne revient plus. Et encore j’aurais envie de plonger dans l’ombre à la recherche du trésor caché dans le puits de tes yeux à moitié fermés pour y boire les sons de ton âme fatiguée et sans espoir. Sans regret, je t’ouvrirais encore mon âme et mon corps et ma vie. Et je t’offrirais mes trésors à moi, sans réfléchir, sans hésiter, sans partir, sans te laisser tomber jamais.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

primeira noite

No rádio, a propaganda da 'maternidade-referência' e a música de fundo: “tutu-marambá/não venha mais cá/que a mãe da criança te manda matar...”

Ê nós!

Sentada no chão do banheiro mínimo, uma só janela por onde foge a fumaça. Ainda escuro, espreito o primeiro claro. Pensando. Aliás, cantando, pra não variar: “aqui os mortos são bons, pois não comem o pão dos vivos e não atrapalham em nada” – e era pra ser um canto de alegria. Ou não.

Cerâmica branca meia-parede, um grilo. Um grilo no portal, três pernas de cada lado, duas antenas grandes, um rabo, arremedo de mais duas atrás. Um grilo entrando no buraco da parede, o papel rolando, desenrolando no chão. Camelos como herança. O grilo e eu. Sem lua. Não sem grilos, que a um trocadilho cretino nunca pude resistir. De toda forma, o chão é frio. A noite, quente, longa e insone. Solidão e fumaça e café. E era pra ser uma festa. Ou não.

A bola amarela do sol dispersa as sombras. Amanhecem mirradas, evaporam, adensam nuvens recém-chegadas. Uma estrada, dois lados de mato, uma memória antiga, cheiro de manhã novinha, dor. Dormência. Trilha. Caminho. Chegada. Sérgio Ricardo, na vez: “tenho pra minha vida a busca como medida/o encontro como chegada e como ponto de partida”.

O que restou de terno em mim lembra a semente de feijão embrulhada pra presente.
Semente de hoje, mulher de amanhã. Espero, não uma a mais, sentada, mais adiante, em um chão de banheiro riscando no ar figuras de fumaça e cantando de memória coisas tristes.

Se no entanto há que ser assim, que assim seja, amém.
Melhor que matar o tutu-marambá.

Homenagem

domingo, 28 de setembro de 2008

outros outubros não virão

Um amigo me escreve "rapidamente" - diz - na contramão do seu estado atual, “que a mente não está tão”. Ainda bem que não. SPA - síndrome do pensamento acelerado - atrapalha a vida, tirando principalmente o sono, conforme soube. E ele me fala da greve das palavras, embora despreocupado com esse movimento. "A gente vai alternando aridez e fertilidade, que faz parte" - respondo eu.
E me tenta: “dia desses uma água de coco, sol, areia, vento, calor, corpos sarados e vazios passando...”.

Talvez seja hora mesmo de dar uma perdida por aí, que não agüento mais um dos trabalhos. E quem agüentar o tempo todo levante a mão.

Meio à canseira e ao praquêtudoisso?, semeperguntarem periga sumir num pressionar de rato, mas tem relutado, rebelou-se, feito a voz do dono, de Chico. E vai ficando.

Pra não dizer que não falei de amor, de amor e loucura, de loucuras de amor: velejando, em meio às dispersões da redação do outro trabalho - nada a ver com isso aqui nem com o um que garante o pão - aportei num portal de psiquiatria. Bom porto. Ruim é se encaixar nuns itens que tem por lá, mas a gente sempre se encaixa. Felizmente, não em todos. No compto geral, pareceu-me que escapei de muitos. Não digo ao certo.

Sem bem-te-vi nem cancão-de-fogo, nada de novo no outubro além dos siris sem-par de Abimael nos cumpleaños de Cipa, dos regalos de Orf e The Imperator (tantas canções!) e dos novos números, nada alentadores, nas pesquisas eleitorais. Dá pra reverter? Vamos pra rua! Eu vou.

Ainda esperando ver a luz, Marina no ar.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

pão e vinho

Duvidava de loucuras, descrente dos loucos mansos e das fórmulas mágicas.

A vida é um xarope e não dá presente, sabia. Por isso ia buscar, sempre, tudo. Limpava e arava e semeava e esperava. Plantava e colhia e fazia do trigo o pão, o suor molhando a massa, o forno aceso, a lenha queimando, no dia comum.

A vida é comum, comuns somos, todos, todos - constatava: o ritual matutino, a abertura do portão, o beijo nos seus, o trabalho, a rua, os passantes, o mês maior que a paga, as contas empilhadas, a roupa por lavar, a carta para escrever, o carimbo, o ônibus, a escola, o pique, a chuva.

Por isso o despertador tocava todas as manhãs.

Tudo comum, e ainda assim, nada, nada se repete ao olhar mais atento.

Daí o fascínio quando a luz esmorece e começa a se esconder, trazendo um estado d’alma que requer outra existência, tons crepusculares, entidades sutis quebrando a invisibilidade, temas fosforescentes, grilhões serrados, coração liberto, estrelas e sóis e álcoois. Poética e cantos e embriaguez e esperanças e bailados e encantamentos e sortilégios.

Por isso perfumava a tulipa da espiritualidade com essência de acácia, quebrada a de jasmim que viera nos dedos da manhã.

E duas existências se fundiam em uma, onde rotina e transcendência oscilam nos pratos da balança dizendo ser o pão necessário, mas nem só de pão vive o homem e os lírios do campo não cosem nem fiam.

Duvidava de loucuras até que o encanto rompia o embotamento.

Até quando via nos rostos a magia da graça, do riso, quando mesmo o pão não havia. E aprendia, mesmo que um pouco só.

Que um pouco só já fortalece. E ajuda a caminhar.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

só um dia

Ainda quis esperar um dia, uns dias, cantando, insistente: ‘pra mim, basta um dia, não mais que um dia, um meio-dia’. Quis, quis tanto que parei de querer pra me perguntar se queria de verdade.

Veio a madrugada enchendo o quarto do calor que não era do teu corpo, a insônia, o sono, o torpor, o susto, o medo, o desejo, a falta, o dia trazendo mais falta, mais ausência, mais calor que não era o teu.

Cantando, sempre: ‘como se fosse a primavera, e eu morrendo’. E querendo viver. E minha vida uma rota, roteiros, umas ruas, uns pés a pé, um carro, uma procura sem fim, do amanhecer à noite, cansada, cansada, casa fechada, cupins em festa devorando meus papéis e eu me perdendo e te perdendo, a cada momento, minuto, a cada dia um pouco mais. E te perdendo entre seios pernas bundas risos sons, molhando madrugadas tuas onde eu distante. E te querendo ainda: ‘me dá só um dia e eu faço desatar a minha fantasia’. E pensando ainda se te quis, te quero, se te perdi sem nunca ter encontrado, se nunca mais vou te encontrar.

E nunca mais é tanto tempo que nem vou estar mais aqui nem você nem nós nem ninguém mais. Mas sei, dentro em mim: não existe nunca mais, tanto quanto sempre não existe. Ainda assim te quero sempre, nunca mais te quero e já nem mais sei bem se quero. Nem o que quero.

Ainda achei que voltarias, voltarás, que não voltas. Em momentos distintos, difusos, à meia-luz, meia-sombra, confundo tudo. E penso às vezes que nunca vieste de verdade, nem inteiro, nem mesmo metade vieste.

A noite agrupa os fantasmas em torno da casa, as sombras crescem, a escuridão lhes dá outras formas.

Que venha o sol, que o hoje me dói, que a noite não tem fim, que as noites tem sido sem fim, impiedosamente sem fim.

Que venha o dia, que espero, cantando, ainda, querendo 'um dia pra aplacar minha agonia, toda a sangria, todo o veneno de um pequeno dia’.

( ' ' : fragmentos de Basta um dia, CBH)


terça-feira, 23 de setembro de 2008

do poder jovem

E é quando a gente menos espera que nada acontece mesmo. Disseram que o mundo acabaria junto com o eclipse lunar, que o rio mudaria seu curso, seguindo do mar à serra, que o mar engoliria essa cidade. Nada, necas nem coisa nenhuma. Ainda. Questão de tempo.

Mileniozinho acanhado, início de século desconjuntado, década atravessada. Conversinha mole de quem já passou, talvez. Que esperar então? Relembro O Poder Jovem, de A. J. Poerner, a juventude nas ruas. A de hoje também, a caminho do show dos plays. Bem outra, esta dos orkuts-messenês-tv-sentaqueédementa. De menta. Sair-dançar-beber-cair-e-levantar e ficar e reficar e a fila anda. E aonde vai mesmo? A fila não incomoda, como nas Autoridades do Capital Inicial: bonecos para brincar. A fila, a massa, nada homogêneo incomoda, que nessa fusão fica fácil brincar de modelar o todo, mais que escolhendo cores pra montar o jogo.

Falando nisso com meu sobrinho Gabriel, estudante, ‘aprendente’, recebi notícias boas. Disse-me que há algo em fermentação, contrariando os que não vêem saída, os que chamam esta de geração perdida. Um povo bom fazendo música e livro e arte, alfabetizando na favela, rompendo o cerco acadêmico, montando biblioteca na periferia, a exemplo do Paço. Timidamente, há algo em gestação, esboço de reação, sopro que se delineia apenas. Se é só oba-oba com estereótipo engajado ou se vão querer redimir um mundo que agoniza, não há como saber. Ainda que por pouco tempo, que ao menos surpreendam minimamente os que agonizam no mundo, dando-o já por perdido.

Quero crer.


rotação

porque já era tarde não te vi
bramir de ave, arrulho de mar
marulho

o sangue no ar da noite,
pálida palavra

água da vida
banha o dia
a sede morna, o bêbado passo

no ar, ensandecido, o grito
olhar da lua agudo

na madrugada longe
poças de silêncio

parto


sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Carta a Antônio 2008.2

Caro Antônio,

Eu lhe disse adeus, uns tempos atrás. E até breve, até um dia.
Até hoje.
É que ontem, no bar, ouvi Praça Clóvis e lembrei de você, do retrato rasgado, jogado no lixo, recomposto milagrosamente, perdido no fundo da caixa de papelão sob outros retratos esquecidos e empoeirados. Você há de me perdoar por isso, eu sei. Tornei pois a arrumar a caixa. Sem danos.
Estive longe, lejos. Nem sequer lhe escrevi um bilhete comemorativo pela passagem de um ano do nosso primeiro encontro.
Foi um julho estranho, este. Muitas chuvas e um sol inusitado interrompendo uma longa espera.
Soube que você andou pela cidade. Como não nos vimos, parabéns para nós agora.
Houve um moço, nesse meio-tempo, você deve saber.
Não sabe é o quanto eu faria pelo amor desse moço. Como não me foi dado fazer com você. Faria mais, confesso, posto que esteve bem junto ao meu coração. Você sabe como amo tortamente, quão fundo me lanço, o quanto me reduzo, agigantando o outro. Como fico piegas, patética, risível, e de tanto me assustar e me encolher, desapareço. Como conosco, tal e qual ocorreu, que as histórias são parecidas, que é difícil arrancar planta sem deixar raiz. Com ele ousei muito mais, despi lágrimas e pudores. E ele se foi.
Tive idéias, chegadas as notícias depois. Nada trágico e ao mesmo tempo, sim. Não pensei em arsênico, curare, estriquinina. Pensei em botox, academia, silicone, curso intensivo de alquimia, elixir da juventude, renew clinical. Mas nada disso era rápido. Nem retroativo.
O tempo é implacável, meu caro Antônio. E leva muito de nós. E deixa muito em nós.
Pensei ainda em mudar de tema, de indumentária, em me aventurar pelo mundo da haute couture, dos scarpins e tallons. O detalhe é que passei da idade, e isso só me faria fútil, não leve. Só me traria arremedo, não sedução. Escolhi o caminho de Baco, que triste não sou.
Voltei aos chorões, revi personagens, bebi do vinho o que suportei. Peço-lhe que desconsidere não termos brindado. Não havia como.
De lá migrei a outras plagas. Saindo, ainda, alguém puxou a barra do meu vestido vermelho. Olhei, ignorei, prossegui até o galpão, levantando poeiras, poeirinhas, poeirão.
Lá, uns jovens. Uns vermelhos. Uns ratos. Uns bons. Um insistente: o da barra do vestido. Olhei melhor. Moço. Belo. Alto. Magro. Olhos negros. Olhar inteligente. Interessante. Interessado. Discurso vermelhoso. Pensei: por que não? Despensei: porque não, que outra imagem me veio à lembrança.
Não esperei o bar fechar, a noite findar nem o povo sumir. Fechei um dos olhos, que a estrada se duplicava, na volta. "Puedo escribir los versos más tristes esta noche" - soprou Neruda.
- Qual o quê! - discordei.
Hoje é um dia novo, escalo as paredes e volto à superfície, inteira mas não intacta. Viva.
Quis lhe contar tudo isso, meu caro Antônio, para voltar a falar com você sobre os abismos. Hoje discordo, em parte, de Paul Valéry. Não é só a vegetação que os cobre que os faz diferentes. Há a profundidade deles também. Afora isso, são mesmo muito parecidos. Ademais, são todos letais. Surpreendentemente, escapamos depois da queda.

Hoje, um bem-te-vi pôs seu papo amarelo na borda da janela, a primavera anunciada em seu canto.
Daqui lhe envio a imagem do bem-te-vi, meu beijo amigo, meus até um dia, até breve.

Maria