quinta-feira, 24 de julho de 2008

Depende de como você quer ver

Amanhece. O canto dos grilos e os bem-te-vis saúdam o dia. Pela janela, o céu de um azul indecente emoldura os galhos do cajueiro em flor. O vento brinca de espalhar raios de sol pela sala, refletidos nas folhas da palmeira. Na soleira da porta, sempre apressado, o beija-flor costumeiro parece pairar por uns segundos e de novo some. A vida traz em conta-gotas os seus presentes.
Ouso querer me perguntar como não estar feliz diante de tanta beleza gratuita e me assaltam as raízes da educação católica e do doutrinamento partidário do passado, perguntando, por sua vez, sobre os flagelos do mundo. Empurro esse pensamento pra longe, deixo a preguiça ir saindo devagarinho, prefiro me deter sobre a utilização do espaço aéreo e os vôos de baixa altitude das abelhas e arapuás. Na natureza, tudo se harmoniza. Em sociedade, o oposto. Deixo a segunda de lado por enquanto, sem culpas.
Um amigo me diz que tudo depende de como você quer ver. Discordo dele pra que possamos discutir sobre isso. O debate me agrada. No fundo, concordo, mesmo sem querer dar o braço a torcer. A vida está aí, a mesma vida, sendo percebida de múltiplas formas. Sobre o mesmo fato, várias interpretações. Sobre a mesma paisagem, olhares diversos.
Estou feliz, sinto muito, desculpem-me os que não. Sinto-me hoje, não sei porquê, parte da dança da palmeira, da viagem do vento, da cantilena dos bichos, dos raios de sol. Sinto a alegria da leveza, sem questionar demais, sem complicar demais.
Dia de viver, tão somente. De sentir, sem querer sempre compreender tudo, porque nem tudo se compreende. De seguir em frente, sendo feliz quando dá.
Tudo depende de como você quer ver.

(Obrigada a Bob, pelo mote)


quarta-feira, 23 de julho de 2008

O tempo traz todas as respostas

Decidi deixar o tempo dizer.
Ou ele tem andado mudo ou eu surda.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Ciclo

Por vezes tenho calma
A languidez dos monges

Paciência
Timidez
Doçura quase servil

Por vezes tenho verve
Discurso pronto
Inteligência aguda
Seriedade absoluta
Perceptível atrás dos óculos

Mas quando a lua é cheia
Tenho um brilho nos cabelos
Língua ávida, boca úmida
Sede,
Desenfreada,
Olhos de lince, molhados,
Entre as coxas uma fogueira

Não deito com qualquer um
É preciso que me encante
Que me excite
Que me ganhe

Amo só quem quero amar
Mesmo só,
Com minhas mãos
Dedos e imaginação


Lua gira, lua cresce,
Lua mingua e tudo volta

E a boa moça se comporta
Até outra lua cheia


terça-feira, 15 de julho de 2008

Da solidão

A lua crescente acende a escuridão. Ninguém por perto. É longo e estreito o caminho até a madrugada. Guardo o leito, antes por desuso que por repouso. Os gatos sabem de tudo. Desvendam as noites, ruas, telhados, desdenham os segredos alheios que testemunham de passagem, indiferentes, majestosos como só os felinos sabem ser. Na esquina, travestis disputam clientes, aos gritos ou tapas - dependendo do humor e do faturamento - enquanto a polícia faz de conta que faz a ronda. O calor aumenta, suportável porém. O bar, fechado; as casas, silenciosas; outras casas e ruas, salas, quartos, cidades. Tudo é igual e tudo é diverso. Haja fome ou fartura, desejo ou torpor, bombas ou silêncio, as solidões se parecem, as alegrias se parecem, os medos e coragens se parecem.
A lua crescente não me traz o que eu queria. Que há de novo nisso? É comum querer o que não há, o que não está, o que não vem. Ela me traz à lembrança, tão somente, palavras de Paul Valéry: “as pessoas se diferenciam pelo que aparentam e se assemelham pelo que escondem. Os abismos são muito parecidos. A vegetação que os cobre é que os faz diferentes”. Ao som do toque de recolher, lhe digo até amanhã. E como tantos outros insones, digo boa noite ao amor que não tenho.


sábado, 5 de julho de 2008

do sonho e do mar

Cabelo ao vento, correndo, correndo, sem nunca chegar ao fim da calçada. Do lado esquerdo, a praia. Lado direito, não sei. O sonho se repete desde a mais tenra infância. No despertar, a impressão de ter passado a noite inteira correndo. Cores nítidas, azul vivo, cheiro de alga. Nunca entendi esse sonho nem o porquê das repetições, espaçadas porém. Aos cinco anos, talvez aos 12, aos 20, depois também. Sempre há pessoas, sempre andando no sentido contrário, nenhuma delas conhecida.
Conheci o mar tarde, apesar de ter nascido no litoral. Depois de um dia de molho e uma noite sentindo como que o balanço de um navio, depois de acordar mareada, fiquei preferindo a areia. Pisava a espuma, que nesse tempo era branca, percorrendo a praia inteira, a pequena praia de Miami-RN, extinta com a construção da via costeira. Na expedição, o olhar surpreso sobre as formas, cheiros e cores que se descortinavam à minha frente. Eram algas parecidas com alface ou cachos de uva em miniatura, em verde-folha, escarlate, marrom. Conchas e estrelas, caravelas azuis, rôxas, transparentes, marias-farinha cor de areia correndo de ré, de lado, desaparecendo na espuma da beira-mar. Mais tarde outras praias, não urbanas, de outras paisagens, coqueirais ao norte, falésias ao sul, acampamentos, violão, fogueira, luar, aguardente branca e áspera, mundo girando, noites estreladas de estrelas dançantes.
Muitos anos passados, morei longe do mar. Andava pela cidade e me perdia de quando em vez, de propósito, escolhia uma direção e imaginava que seguindo sempre encontraria mar ou rio. Encontrava, um rio enorme, poluído, cheio de pontes, barcos e água escura. Sonhava com o mar, sentia necessidade orgânica do mar, de estar perto dele, sentir seu cheiro, seu sal.
Quando voltei à minha cidade natal, não o busquei muito, me contentava em saber que ele estava perto.
Ontem sonhei novamente correndo ao longo da praia desconhecida. Vendo-o ou não, o mar sempre volta. Voltam as ondas, volta a lembrança, volta a infância com cheiro de alga; como depois do maremoto, a calmaria. Como depois da tristeza, a esperança.


terça-feira, 1 de julho de 2008

Carta a Antônio 2008

Caro Antônio,

Vou dizer umas coisas que eu não disse, coisas que você já deve saber, caso seja o bom observador que parece ser: há duzentos anos amei você. Amei do amor que cabia em todas as canções. Amor de arrancar tôco, amor demais, amor maior, amor em paz. Por esse amor eu faria de um tudo, coisas certas e erradas. Cometeria desatinos. Passaria a semana inteira comendo carne vermelha. Jogaria latas de cerveja na rua pela janela do carro. Faria o caminho de Santiago a pé, subiria de joelhos a ladeira da Sé de Olinda, iria ao Juazeiro pagar as promessas que não fiz ao padre Cícero. Deixaria de beber, de fumar, de falar do próximo quando distante. Compraria dois automóveis, todos dois pra ti, mesmo sem tostão. Meu caro Antônio, duzentos anos voam, mas ainda assim é muito tempo. Passei por todas as fases: a paixão fulminante, a desilusão, o desatino, o tempo da delicadeza. Chorei tanto que o Orós sangrou. Bebi tanto que quando parei fui procurada para dar palestras no AA. Se tudo passa e tudo muda, era preciso que você soubesse que tudo finda. Se eu quis tanto outrora, hoje já não quero saber os porquês. É muito simples: há o querer e o não querer. Você não quis. Tudo o que daí decorre, as razões todas para o não, já me afligiram, já me ocuparam o pensamento. Compreensiva que sou, compreendi todas elas e saí pela tangente do principal, do que eu não estava ainda preparada para perceber naquele século distante. Você não me quis.
Quando comecei a entender que era só isso, juro que me senti a quintessência do nada, a derradeira das criaturas, o cocô do cavalo do bandido e expressões semelhantes. Não era preciso nada disso. Eu já sabia que não era nenhuma beldade, sex symbol ou coisa que o valha. Já me aceitava assim mesmo, mediana no máximo. O nó de marinheiro foi aceitar o fato, não ter você, ter que desistir. Você sabia do meu amor. E me fez mal querendo fazer bem. Porque você é bom, mas agiu errado. Pelo seu cuidado, não me disse: vá, não lhe quero. Foi polido. Preocupado. Atencioso. Minha percepção estava tão distorcida que interpretei isso como possibilidade de querer, esboço de aproximação, alimento. Por isso demorei tanto a ver o que estava tão claro. Então vi.
Meu caro Antônio, hoje eu sei. Você não imagina nem de longe o que perdeu. Não sabe que eu tinha um tesouro pra lhe oferecer. Um tesouro sem preço, cheio de estrelas, entardeceres, canções, prazer, carícias, risadas, devaneios, cumplicidade. O tesouro que era o maior amor do mundo.
Mas duzentos anos se passaram. Você ficou em algum lugar distante na minha lembrança. Você não me entristece, não me desafia, não me instiga, não me atiça, não me alegra mais. Sei que você é raro, mas pra sobreviver lhe tirei o posto. Mandei você pra esfera dos comuns. A vida é assim, meu caro. O amor é assim.
Quero, se puder, lhe pedir uma coisa. Se um dia, por via sabe-se lá de quê, você pensar em mim, pense como algo bom. Pense que quero muito você feliz. Pense que você é precioso, não importa o posto que perdeu. Já lhe disse, foi estratégia de sobrevivência. Ele é seu e é merecido. E mais, se preserve. Não jogue pérolas às porcas. Mantenha distância de quem não souber lhe perceber, pois essas pessoas não valem a pena.
Meu caro Antônio, nesses últimos duzentos anos aprendi tanto! Tomei de volta minha vida em minhas mãos. Espero ter aprendido a amar, mais um pouco.
Daqui lhe envio meus melhores desejos, meu adeus, até breve, até um dia.

Maria


sexta-feira, 27 de junho de 2008

Outra possibilidade

Saiu sem saber direito o quê ou quem ia encontrar. De diferente, um frio revolvendo a boca do estômago, as mãos geladas, uns tremores sacudindo o corpo, ansiedade sem motivo aparente. A cabeça começava a doer prenunciando mais um inferno, a têmpora direita não parava quieta: a cada palpitação, uma agulhada nos miolos. Maldisse a cerveja do dia anterior, tomou analgésico, seguiu. Chegou no bar, pediu coca-cola, tentou adivinhar o que viria a seguir. Conseguiu, mas não acreditou muito até vê-lo, riso largo, barba por fazer, bonito - tão bonito! Levantou-se da cadeira, um abraço cordial, beijo rápido no rosto, a quase euforia contida. O corpo tremia tanto que teve medo de se denunciar. Correu até o banheiro, sem vontade de nada, lavou as mãos, repetiu mil vezes: calma! Voltou à mesa com a têmpora explodindo, decidiu beber. Foi pior. O anúncio na placa luminosa à frente deu o golpe de misericórdia, a dor crescendo. Acabou que veio a calhar, a placa, pois de onde estava não podia vê-lo bem sem ser percebida, decorar seu rosto, decifrar seus movimentos. A pretexto dela, pôde então sentar-se do outro lado da mesa, olhá-lo de frente, aproveitar os intervalos das agulhadas para imaginar, quase sentir, o roçar daquela barba na nuca. Pensou: é hoje ou nunca. O inesperado tem dessas coisas. Tudo acenava que estava mais pra ser nunca. Conversas e silêncios, por que é que essa dor não passa, por que é que esse povo não vai embora, por que não adivinhei antes, por que não paro de tremer, por que não saímos daqui correndo, por que não desligo o telefone? Tocou. Não era mesmo pra acontecer. Bom demais pra ser verdade. Tenho que ir. Desculpas etc. Saiu murcha, morrendo de dor e frustração, maldizendo o telefone, a ineficácia do remédio, a brevidade do encontro, a impossibilidade, o inesperado. Talvez nunca mais. Talvez algum dia. Talvez. Levou pra casa, colados na lembrança, todos os fragmentos dele que conseguiu reter: rosto, boca, riso, pernas. Dormiu com eles, dormiu com ele. Não sonhou. O despertar sem dor e o sol nascente abriram outro dia. Outra possibilidade.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Soy libre?

Cada um escolhe suas amarras. Livre até certo ponto. Liberdade de ficar ou partir, de querer ou desquerer, liberdade relativa. O amor liberta, a gente é que faz dele mau uso, deixando-o com cara de cárcere. Artur da Távola, em seu belíssimo ensaio Do amor: ensaio de enigma, alerta para essa distorção. Escreveu que muitas, muitas pessoas mesmo, se unem por motivos como a solidão, o interesse, a carência, as afinidades, o desafio da conquista e até por amor. Poucas o fazem pela felicidade. E assim se deixam ficar até chegar o cansaço ou morrerem infelizes para sempre. É que- disse ele - o amor é leve e perfeito. Nós, imperfeitos, o sobrecarregamos com expectativas, podas, intolerância, cobranças, até que ele vire fardo, se esgote, se vá de vez deixando oco ou ranço. Uns poucos sábios saem antes, quando ele ainda pulsa mas já não encontra espaço, fazendo-o assim virar poema, lembrança, canção.
Em meio a histórias esgotadas, relações que morreram em presença, fica difícil vislumbrar saídas, fica difícil ver à frente um caminho aberto, cheio de luz. E nos deixamos ficar, tristes, acabrunhados, mal humorados, cheios de questões vazias - haverá um novo amor? encontrarei alguém? serei feliz? - cuja resposta está nelas mesmas. Questões que podem ser respondidas com outras questões pertinentes: há um amor agora? o que estou vivendo é um encontro? estou feliz?
Diante da negativa, não há porque choro nem vela. O recomendado, segundo Vinícius de Morais, é sair sem alarde, mansamente, levando uma muda de roupa e a escova de dentes. Porque virá sim, o luto. Mas dura, no máximo, acredito, uns três meses. Dói pra danado, intensamente, mas passa. Depois mostra o brilho da estrada nova. E o quanto não já doeu mornamente no durante?
É preciso coragem, é preciso destemor, é preciso força, mas vale a pena. Partir é também libertar-se. Ao deixar algo para trás, que nos fazia ficar atrás também, nos abrimos para o que pode vir. E o que virá pode não ser necessariamente alguém, mas há de ser amor. O reencontro amoroso consigo mesmo, com o seu eu mais profundo, submerso até então, que encerra porém, tesouros a descobrir.
O amor liberta. E há que se libertar o amor. Talvez seja hora, como no mito de Prometeu, de subir até o rochedo e cortar-lhe as amarras, dar fim ao seu suplício, ao invés de a cada dia bicarmos como abutres seu fígado. E como tudo vira canção, cantar também: "soy libre, soy bueno y puedo querer".

terça-feira, 24 de junho de 2008

Desconstrução

Quem quiser saber sobre seu paradeiro
procure as pistas, leia nos caminhos
ache as pegadas na estrada de terra
na encruzilhada, pergunte à cigana
veja nos astros os segredos dela

decida logo, pode chegar tarde
saiu, sumiu, nem deixou endereço
acordou cedo, nada mais queria
nem café morno nem a vida igual
andar ligeiro, nem olhar pra trás,
pra não tornar-se estátua de sal
cansou de tudo, o desamor, o espinho
cansou de cedo conhecer a dor
cansou do medo, do seu descaminho
do ser sozinho, do pranto cansou,
como cansou do riso e da canção
da longa espera, o nada anunciado
o possível, o impossível, o namorado
o noivo, o amor, o amante e a mentira
cansou, se foi, saiu cedo com o dia
não volta mais porque se foi de vez
em seu lugar, a si mesma deixou
que era, porém, outra, por sua vez.

domingo, 22 de junho de 2008

Mercedes

Eu tinha dez anos quando A Arte de Mercedes Sosa entrou lá em casa. A sonoridade dos tambores e a voz grave, forte, o timbre particularíssimo, causaram estranheza em um primeiro momento. Era um álbum duplo em vinil, capa branca, as letras impressas no lado interno do encarte. A "família engajada" tratou de me guiar nos passos dessa descoberta. E eu bem que quis. Tratei de aprender a cantar todas as músicas, acompanhando o som da vitrola, completando com a leitura de uma língua também estranha até então. Irmão aprendia os acordes de ouvido, passava para a viola, irmã fazia as traduções, explicando todo o sofrimento do ‘pobre povo trabalhador’ e as denúncias cantadas. Aquilo me seduziu, me emocionou, se apoderou de mim, e é certo que influiu diretamente nos caminhos posteriores, na militância política, na opção pelos excluídos, por mais que o discurso hoje pareça gasto e antigo.
Não conseguia não me comover até as lágrimas ouvindo o violino de violin de Becho, pensando nas crianças de Niño en la calle, ou não me indignar junto com o texto de Plegaria a un labrador. Alguns anos mais tarde, aprendi toscamente a tocar Volver a los 17 no violão.
Mercedes é intrigante. Quem conheço que não gosta, dificilmente vai vir a gostar. E para todos os que conheço que gostam, virou vício desde a iniciação. Assim foi lá em casa até o fim do vinil. Entravam com ar de grande novidade, com a ansiedade que antecede a revelação, os discos que se sucederam à Arte. Virou paixão. E perdura.
O tempo passou, trinta anos se foram. Irmão não tem mais tempo. Irmã se foi e não volta mais. Só se houver outra vida. Mercedes canta aqui em casa, sem o encanto dos vinis e a festa dos irmãos, sem o violão e o canto dos ouvintes acompanhando. Canta nos raros dias de chuva, histórias de luta e de amor. Amor por um povo ou por um homem, uma mulher. Canta forte, batendo o seu tambor, enchendo o ar com sua voz tucumana. Os vizinhos não a conhecem, parecem torcer o nariz para o som, mesmo baixinho, audível só da soleira da porta. Eu a vejo cá e lá, em programas de tv, imagens de arquivo, ou em vídeos na internet, já maltratada pelo tempo. Sua voz ainda forte, no entanto, não deixa dúvida do quão importante foi crescer junto ao seu canto.


sábado, 21 de junho de 2008

O abismo

Nunca conhecera alguém assim. Insondável. Obscuro.
Abismo de mistérios: lança-te e continuarás sem descobrir o que ele oculta. Talvez até quebres o pescoço, na melhor das hipóteses.
Nada explícito, nada dito, e se insinuado, sutil por demais para ser percebido por quem diz demais, por quem vive nu, por quem rasga o peito e estampa nos out-doors da cidade o coração.
"Nunca" se tornara uma constante. Nunca antes tão contraditório sentir assim. Intenso, arrebatador e - como? - conformado, inteiramente à mêrce do acaso. Intenções moduladas, nada será, nada é, nada foi além de encontro. O vaso é pequeno para comportar a raiz. A planta não tem pra onde crescer. E falta a rega. E sobra a poda, auto-infligida.
As canções ecoam na lembrança, uma em particular. Vem inteira a canção das simples coisas. Canta em silêncio: "alguém volta sempre aos velhos lugares onde amou a vida/e então compreende como estão ausentes as coisas queridas/por isso, moço, não partas agora sonhando com o regresso/que o amor é simples, e às coisas simples, as devora o tempo..."
Perigoso mesmo é não viver. Não se lançar. Passar ao largo do abismo.
Lançou-se. Não chegou ao fim. Esbarrou em algo, aportou em nuvem. Subiu leve, leve.
Estranhíssimo. Alegria e tristeza, encontro e despedida, tudo junto, misturado. Nem quebrou o pescoço. Também não conheceu o abismo, que continua lá, na outra esquina da outra estrada, ainda insondável, ainda tentador. Depois do primeiro mergulho, ainda mais que antes.
A próxima página do livro poderia revelá-lo, mas não há nada nela para ler: não chegou a ser escrita.

(dedicado aos escorpiões)


segunda-feira, 16 de junho de 2008

Junho

Vazio de palavras e sons. Um oco sem eco. Por fora. Dentro tudo pulsa, grita, reverbera. Turbilhão. Tempestade. Quisera dizer-lhe todos os desaforos calados. Romper o silêncio. Abolir o não dito.
Entardece e tudo é torpor. Nuvens, tédio, imprecisão. Nada desperta, nada é viço, nada... Nada houve, quase nada. Quase um desenho. Nem chegou a ser. Esboço, rascunho, garatujas no papel que se dissolve hoje em algum lixão da cidade cinzenta de breve inverno. Inverno confuso, estação de mentira, como as outras nela. Nunca verão, nunca completo. Estio e chuvas, calor e menos calor. Sempre assim.
Quisera gritar-lhe toda a sorte de impropérios. Os mais baixos, todos os do repertório elaborado na escola pública, na rua, em casa, todos os que anos de literatura clássica não chegaram a suprimir. E o faria sem rubor. Mas não consegue dizer nada além de perdão, por favor, obrigado, com licença. Bom, muito bom. Adestramento feliz, lapidação quase perfeita. Não fosse pelas marcas do tempo.
Vazio. Surdo. Mudo. Cego. Oprimindo o que quis florescer. Esmagando a promessa de sol. Fugindo da dor. Feliz, feliz. Falsamente feliz. Riso, canto, álcool, planos, livros, projetos...
Entardece na cidade cinza. O amor não vingou. Não vingará. Não existiu sequer para se trasnformar. Nem em raiva, nem em pranto, nem em saudade, nem em lembrança, nem em esperança. Tudo é plácido, tudo normal, "tudo na mais perfeita ordem", como dizia o poeta. "Tudo na mais santa paz".


domingo, 16 de março de 2008

O que meu corpo abriga

"Eu não sei o que meu corpo abriga nessas noites quentes de verão..." É down em mim, a música. Cazuza cantava. Penso nela hoje porque algo em mim dói mais que ontem. Pensei em ir até a farmácia, mas lá só vende artificial, a alegria, e eu queria genuína. Luís Gonzaga Júnior, Gonzaguinha, em uma de suas composições, nos dizia de uma peregrinação pela cidade atrás dela, "que vendem barato em qualquer quitanda". Mas estava tudo fechado. Nada de alegria, felicidade, ânimo, cura, paz, a ausência desse não sei quê que faz doer agudo ou que nome quer que tenha isso que hoje aperta a alma mais que normalmente.
Alguém me enviou um poema certa vez. Anônimo. Falava na "ausência do que não tive". Não é incomum se sentir ausência do que não se tem ou não se teve. De amor? De sentido? Talvez essas sensações sejam apenas doença de verão. Ou podem ser doença de impossibilidades.
Acontece assim com os amores não vividos. Há até quem adoeça por eles. Muita gente nunca os teve, mas quem teve ou tem sabe que doem. Quem dentre estes não se perguntou como teriam sido, se possíveis? Quem não imaginou como seria compartilhar o sonho e a cama, os sussurros e segredos com o seu amor, desvendar-se, revelá-lo? Na sua fantasia, perfeita, ele lhe olharia com olhos cheios de amor também. Suas mãos seriam leves; seu corpo, quente; o encontro, pleno, verdadeiro, intenso. Seria fascinante, você imagina, ter podido sentir o toque e o calor da sua pele, suas mãos deslizantes pelas costas, o tracejar dos dedos redesenhando o contorno da boca, a cumplicidade nas bobagens ditas, no olhar pro teto, no beijo. O beijo. Pode acontecer de você nunca ter antes pensado no beijo até que uma noite ele lhe assalta em sonho, o beijo que você não provou, e lhe faz acordar assim, com saudade do que não viveu. Nostálgico. Às vezes patético. Você imagina muitas estradas, caminhos, histórias, e mais, muito mais, sem saber (nem saberá) se teria sido assim. Nunca é. Durante os momentos em que ele lhe revestiu de sentido a vida, você achou que podia ser amor e que valia a pena sentir, até de longe, até na ausência, até impossível. Ironia é que pelos descaminhos dessa mesma vida, ele não pôde florescer.
E quando o seu desejo, ciente das impossibilidades, resolveu insistir e permanecer, adormecido, sublimado ou latente, foi então que virou amor, atingindo a condição de amor impossível. Impossível consumar, possível sentir; às vezes em paz, em outras, com dor, sem direito a retribuição nem expectativas. Por isso talvez tantos deles morram. Não conseguem sobreviver por muito tempo, a não ser que se os entorpeça a contento. Talvez os entorpecidos ainda resistam porque muitas vezes são bem maiores que o grande nada de antes. Vêm então para preencher as lacunas de si que atormentam cada um.
E sem saber ao certo se são eles que lhe incomodam nesse fevereiro em meio à floração dos cajus, você se pergunta, como eu, o que seu corpo abriga nessas noites quentes de verão...


quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Primavera em Natal

Calçada em tapete rosa
flor de jambo é todo o chão,
tem mangueiral, cajueiro,
ipê roxo em floração,
a tarde amarelecendo
no espelho da grande duna,
um coração que se quebra,
se remenda, e novo em folha,
é de novo fruto, é flor,
é verso, é o que mais for

o vento revolve em volta
o que de antigo não morre
o que em novo não perece
primavera o ano inteiro,
dentro e fora, tarde e cedo.
eu canto, e você nem vê
ou, talvez, não quer saber
a vida inteira se move
na roda do universo
um menino esfomeado
bate à porta em minha casa
um poema esfaqueado
exangue, morre no asfalto
quem se importa? que se dane!
tem-se mais o que fazer
é primavera em Natal
mas ninguém mais quer saber


quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Soneto

Anoiteceu, o sopro na janela,
o vento, implacável ao meu redor,
desperta o canto que se quer maior
com outras tintas colorindo a tela

Acordes repovoam o esquecimento
canções esparramadas noite afora
esperam a madrugada, sem demora,
para invadir teu quarto e pensamento

Quantas cores invento a cada dia
para pintar de sonho um novo som
como se a poesia ainda vivesse?

E quantas luas eu não esperaria
pra te dizer quanto seria bom
estar contigo? Isso, se eu pudesse.


quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Às filhas bastardas da ditadura (em 19/04/2003)

"E é como se eu descobrisse que a força esteve o tempo todo em mim. E é como se então, de repente, eu chegasse ao fundo do fim. De volta ao começo” (Gonzaguinha).

Estive pensando no que deu pra nós no tarot.
A carta, não me lembro qual, dizia que era tempo de romper com as maldições.
De passar por cima de todos os nãos acumulados por tantos anos e que nos impediam e impedem de avançar: os "não pode", "não consegue", "não é capaz", "não sabe", "não precisa fazer isso", "não é possível", "não vale a pena".
Não sei quem veio antes: se a história da Bela Adormecida foi o molde utilizado para nos enquadrar ou se foi uma leitura simbólica do que já eram algumas mulheres.
Lembro da nossa adolescência.
Como na história da Bela, a maldição tomou forma na adolescência.
Nasceu e uma mulher, infeliz com sua vinda ao mundo, rejeitada por ter sido esquecida para a festa de batizado, lançou-lhe uma maldição, segundo a qual, mal entrada na adolescência, ela adormeceria eternamente por obra de um tear mágico.
Era curiosa, aos 15 anos desobedeceu as ordens de ficar longe dos teares, queria vê-los, furou o dedo em um, enfeitiçado, e adormeceu. Até que um principe de um reino perdido viesse libertá-la do sono com um beijo. Era limitado o poder da bruxa, afinal.
Éramos livres, ou nos sentíamos livres e parecíamos saber o que queríamos.
Isso na infância.
Na adolescência, as maldições foram muitas. Não nos enquadrávamos, não tínhamos "vaidades", como convinha às mocinhas da nossa idade. Escondíamos nossa falta de roupas modernas e sorte com os rapazes, pela timidez e inadequação da adolescência, atrás do discurso engajado de meninas inteligentes e à "gauche". Construíamos nosso grupo, lugar de exercício – e construção – da nossa identidade : o grupo das "alternativas". Alternativas por convicção ou por falta de alternativa, por inadequação?
As meninas direitas bebiam guaraná. Tomávamos cachaça.
As meninas direitas eram do grupo de jovens, iam à missa, ficavam noivas.
Éramos da União da Juventude Socialista, iamos às reuniões do Partido, ficávamos tristes.
As meninas direitas debutavam, se confessavam, queriam casar e ter filhos.
Comemorávamos na praia nossos aniversários, éramos agnósticas, queríamos fazer a revolução.
As meninas direitas transavam nos carros dos namorados, se diziam virgens, não se tocavam, não falavam nome feio.
Éramos virgens por não saber como deixar de sê-lo, falávamos de sexo com nossos amigos, buscávamos respostas sozinhas no escuro do quarto, exercitávamos nosso léxico de palavrões cabeludos.
As meninas direitas dançavam música lenta. Não sabíamos dançar.
Cantávamos alto na rua. Elas, de walk-man.
Elas, Raimundo Sodré. Nós, Geraldo Vandré.
Nossos amigos, os "diferentes": homossexuais, enrustidos ou não, futuros suicidas, "bichos-grilo", rebeldes, engajados ou inadequados como nós.
A "turma" delas, os meninos ricos: os bonitos, dourados, surfistas e motorizados, fisiculturistas, esportistas, esportivos, alienados, modelos, cobiçados, protótipos dos futuros bem-sucedidos, enfim.
Negávamo-nos nossa feminilidade e alguma beleza. Éramos endurecidas, pisávamos firme, tínhamos gestos largos, mãos demais para saber o que fazer delas. E a força da palavra. Falávamos para auditórios, em reuniões, em palanques.
Com o garoto desejado, emudecíamos. Eramos vistas, respeitadas, apontadas, admiradas, rejeitadas, nas mesmas proporções. À distancia, como cabe aos "diferentes". E queríamos abraço, mesmo assim.
Elas não precisavam estar no centro. Eram meninas-mulheres. Tinham o encanto da sensualidade que se revelava. Não precisavam da força verbal e gestual. Podiam ser frágeis, era o seu charme.
Nós, não. Para a patrulha ideológia seria imperdoável: "desvio pequeno-burguês".
Ainda assim, do alto do morro, à força de largos goles de vinho barato, chorávamos ao pôr-do-sol ou nas festas da lua; de frente à fogueira ou cantando canções. A dimensão do poético era permitida, pois que a angústia de viver e crescer era contestatória afinal.
Assim vagamos, nunca totalmente entre os adultos, que nos faziam concessões, dado sermos exceções; nunca totalmente entre os "outros" adolescentes, pra quem tanto éramos divinos, por ousar, quanto malditos, pela exclusão que nos impunha a ousadia de sermos diferentes. Diferença que era escolha, negação ou condição?
Assim chegamos aos nossos teares. Furamos os dedos, adormecemos. Estava instaurada a nossa maldição. O fuso do tear nos penetra até a alma. Enfim, seremos "normais". No tear, a descoberta do masculino no outro, do encontro da carne, o desabrochar do prazer-dor, do amor que redime e concede o auto-perdão. Com ele, o direito a ocupar espaços antes proibidos, por outros, por nós.
Vêm os filhos, a casa, o trabalho, parece que enfim, estamos, chegamos, podemos.
Mas é condição intermitente. E se vai. O príncipe vira sapo, o mundo pesa. O seu beijo não nos desperta. A maldição não é quebrada. E fica o gosto de sangue e de sono, do perdido, do não alcançado.

A carta do tarot, simbólica como a história da Bela, o que dizia, afinal?
Talvez que crescemos e que não tem mais bruxa, nem fada.
Aprendemos o batom e o perfume, o vestido e a cor. Permitimos o riso e assumimos os riscos. Somos. Podemos seguir. Mudamos de gestos e o tom do discurso, não de lado. Acreditamos e queremos romper com a maldição. Sabemos que despertar do longo sono vai doer e que o beijo do príncipe virá nos libertar. E ele não vem de longe, em um cavalo branco. Vem de dentro, da nossa dimensão masculina, aceita, suavizada. Revela-se no casamento entre a força e a doçura dentro de nós. Força enquanto atitude, para desafiar e vencer as maldições. Doçura enquanto expressão: o beijo como arma. Ele, o príncipe que há em nós, nos revela inteiras e libertas. Nao há príncipes externos a esperar. A força está lá dentro, sempre esteve: quando a buscávamos, querendo ser/sendo menino-guerreiro; quando a negávamos, pensando ser/sendo, esposa-mãe e trabalhadora exemplar. Escapamos cansadas.
A força não é mais oposição. É a aceitação do todo em nós: o feminino/masculino, homem/mulher. Completos, presentes, fundidos, misturados, complementares, contraditórios. Partes e todo em nós, suave beijo contra a maldição da história. Maldição, que assim como a força, nunca existiu, senão dentro de nós, de cada um, e nas histórias que ouvimos, criamos, construimos, contamos.
E nas cartas do tarot.

(escrito para Niza, Heronilza Ferreira do Nascimento, em Paris, quando o seu sorriso solar ainda iluminava esse mundo)

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

A casa da viúva (em 17/02/2002)

Cinco, sete anos? Não me lembro direito. Estava naquela idade em que o tempo ainda não tem tanta importância e a gente se contenta em guardar fragmentos de imagens, cheiros, sabores, descobertas.

Rua Presidente Bandeira. À época, avenida Dois. Ainda tinha a linha Vila São José pela rua Jaguarari e uma espera tão grande pelo ônibus, que do Barro Vermelho ao Alecrim era melhor ir a pé. Ainda ruas de areia, e de paralelepípedos, muitas. Ainda lentidão no despertar, no caminhar e no viver. Tudo amanhecia meio preguiçoso nos muitos dias de sol de Natal.
A casa funerária era a maior da cidade. Metiam medo todos aqueles caixões roxos e grinaldas artificiais, coisa de assombração, não da morte, que quase sempre parece distante na infância.
Não tinha como desviar, era o roteiro obrigatório até o endereço encantado. Sábado, movimento, feira, comércio, passada a porta do medo, logo ali, vizinho, o endereço.
A Casa ficava abaixo do nível da calçada. Bastava descer uns degraus e se via o balcão. O rosto por detrás me foge, sei que era viúva e sempre vestia preto, com um lenço no cabelo. Sobre o balcão, calendários de santos, do Sagrado Coração, de gatos, de crianças rosadas de olhos azuis. O tesouro, os pequenos livros com capas ilustradas, miolo em papel jornal, modestos, empoeirados, amarelecidos pelo tempo. Custavam o troco da feira. Quando havia troco - quase nunca - minha mãe comprava o que podia. Às vezes um, às vezes mais.
Contavam historias de reinos distantes, dragões e princesas encantadas, combates heróicos e viagens sem fim. Minha imaginação se enchia de pavões voadores, meio bicho, meio nave, cachorros que venciam dragões, reinados subterrâneos que desapareciam miraculosamente à luz do dia.
À noite, meu pai contava e cantava de cor essas historias, todas rimadas e ritmadas, e findava por adormecer. Ele. Eu continuava a viagem até a caverna do dragão, esquecendo o medo das flores de plástico, o calor e os mosquitos, até os olhos pesarem mais que a fantasia.
A funerária cresceu, a calçada subiu. A casa foi engolida pelo asfalto. A viúva desapareceu.
Faz tanto tempo!
Às vezes eles ainda voltam, à noite: o pavão misterioso, Juvenal e os seus cachorros mágicos, Rompe-ferro, Ferrabrás. Às vezes ainda chego até a entrada da caverna e vejo que o dragão continua dormindo seu sono eterno de lenda. É então que durmo também. E sonho, um sonho leve, de sono sem medo.